quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Glasgow?


Esse é o título do album de fotos do Facebook de um espanhol que trabalha comigo e que, assim como eu e diferente de quase todo o restante das pessoas compostas por no mínimo 17 nacionalidades distintas, se mudou para Glasgow somente por causa do emprego de Localisation Game Tester.

Ele porque é apaixonado por jogos e eu porque sou apaixonada por países. Depois de três longos meses de holidays, estou curtindo a vida de assalariada nessa cidade que até pouco antes de vir pra cá nem sabia que existia, que era a terceira maior do Reino Unido, a primeira da Escócia - ultrapassando a capital, Edimburgo- e cheia de pessoas que como eu, estão aqui de passagem.

Ninguém na empresa diz que quer ficar pra sempre em Glasgow, mas a maioria veio pra estudar, terminou a faculdade e ficou. São italianos, franceses, alemães, espanhois, portugueses, noruegueses, chineses e por aí vai... Diferentes nacionalidades, idades que variam entre 22 até 30 e poucos. Quase todo mundo desgarrado das familias, o que me faz ter a sensação de continuidade da vida universitária com a maravilhosa diferença de não ser mais subsidiada pelo dinheiro do papai!

Tudo isso tem sido, no mínimo, uma experiência extremamente interessante. Com mais um emprego que entra pra categoria dos mais legais, 10 meses de pé na estrada e há apenas 2 dias de completar 2.4, gostaria de falar sobre Glasgow!

Uma cidade de porte médio, sem aquela muvuca toda de capital, mas com tamanho suficiente para ter tudo o que se precisa nos requisitos praticidade cotidiana e entrenimento.

Aqui fica o cinema mais alto do mundo, um complexo de salas em que se pode escolher inúmeros filmes sem perigo de sessão lotada. Com duas universidades públicas e várias outras menores, é quase uma Bauru da vida. Quase não tem brasileiros, mas ainda dá sempre pra encontrar uns dos nossos no restaurante chamado Tropeiro e no pub Boteco do Brasil, embora os estabelecimentos sejam mais voltados para estrangeiros do que para os conterrâneos em geral.

Se não fosse a estranha cultura dos bares fecharem cedo, assim como em toda a Grã Bretanha e na Irlanda, eu diria que tem uma vida noturna agitada. Um centro comercial amplo, um custo de vida acessível, praças, museus e parques agradáveis.

Fica devendo no clima, mas isso já era de se esperar e até que estamos tendo um novembro atípico com temperaturas agradáveis entre 9 e 15 graus.

A Escócia está para o Reino Unido, assim como o Rio Grande do Sul está para o Brasil, com a diferença de algumas pitadas de informalidade e descontração nordestina; divididos entre o orgulho de pertencer a um dos conjuntos mais sólidos e famosos, mas ao mesmo tempo cultivando com muito esmero particularidades que só um escocês há de ter. São britânicos com um quê de colônia e aí entra toda a descontração que um típico inglês não consegue ter.

Gostam de estrangeiros, são extremamente educados e dispostos a ajudar, falam pelos cotovelos com um sotaque dificílimo de entender, mas não perdem aquela pompa britânica de pontualidade, exatidão e nada de contato físico para dizer oi, tchau, parabéns, obrigado ou adeus.

Que mais? Deixaram de lado a culinária literalmente sem sal, que é marca registrada da Irlanda e Reino Unido e se renderam aos temperos picantes à base de chilly e curry introduzido pelos indianos. Porém, de um modo geral, são bem receptivos com todos os tipos de culinária e fazem o tipo que come de tudo. Como de se esperar, adoram um bom whisky e cerveja. Rugby e futebol.

Só usam saia em ocasiões especiais. Os famosos kilts saem do armário apenas para formaturas, casamentos e jogos de futebol contra times não escoceses. No dia-a-dia todo mundo veste roupa normal, de preferência bem pesada para suportar o frio.

Isso já está parecendo uma descrição de tribo ou comportamento de determinada espécie, mas só para terminar, têm médicos, exames, hospitais e remédios gratuitos de qualidade, sem fila, nem constrangimento. A população e os policiais são interamente desarmados e as maiores brigas giram em torno de problemas que envolvem uma partida do Rangers X Celtics.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

Volta o cão arrependido...


Quase dois meses depois de uma vida intensa de praia e sol ( só faltou o Carnaval e o Futebol, mas calma que ainda não voltei pro Brasil), eis que volta, como diria o bom e velho Chaves, nas tardes do SBT, "o cão arrependido, com suas orelhas tão fartas, seu osso roído e com o rabo entre as patas".

Em que lugar do mapa estou agora? Em, Birmingham, Inglaterra, mas ainda rodei um bom tanto antes de chegar até aqui. Aprendi várias lições, escolhi de novo o caminho mais difícil priorizando o novo, revi amigos que não via desde os Estados Unidos em 2008 e recomecei a saga que parece não ter fim por um novo emprego.

Ah, faltou dizer que revi a mamãe. Depois de seis meses longe de casa, ela se encontrou comigo em Madrid para um pequeno mochilão Espanha, Itália e Portugal. Aliás, é por essa viagem que quero começar. Meu primeiro mochilão feito com a mais improvável das companhias, minha mãe. Que resistiu bravamente as minhas incessáveis andanças com a mania chata de não querer pedir informação a ninguém e me orientar somente pelo mapa que nem sempre é fácil de entender.

Muito pacientemente (ok, algumas vezes nem tanto), ela persistiu por Madrid, Roma, Porto, Fátima (esta fui eu que persisti) e Lisboa. Uma viagem singular, tendo em vista que é a primeira vez que pulo de país em país sem descanso; que viajo com a minha mãe, sem ser uma viagem familiar; que conheço o grande e eterno berço da nossa civilização; que conheço o país que colonizou e que, bem ou mal, mais implicou na cara do Brasil que temos hoje; que faço uma perigrinação; que (quase ou bem de longe) vejo o Papa; e que perco todas as minhas fotos de viagem.

Pois é, me pareceu que o eterno berço da civilização não é tão civilizado assim e apesar de ter passado por estruturas e ruínas históricas como o Coliseu, o Fórum Romano, as inúmeras fontanas e piazzas, as únicas lembranças pra mostrar que me sobraram de Roma foram um mapa gasto e rasgado no meio, uma camiseta que era pra ser do meu irmão e um bilhete de metro.

A Cidade Eterna levou permanentemente minha câmera da Sony novinha e todas as fotos que eu havia tirado nos seis dias de passeio. A caminho do aeroporto, não sei se em um tumulto ou enquanto esperávamos o trem, simplesmente abriram minha mochila e foram-se os registros da Itália.

Conselho, nunca deixem a câmera em um bolso fácil demais de abrir. Tá, acho que todo mundo já sabia disso, né? Só eu que adoro brincar com a sorte...

Tirando esse pedaço e as ladeiras de Portugal, a viagem seguiu tranquila. Me impressionei com as boas energias que carrega Fátima, adorei o jeito amigável como fui tratada pelos portugueses e descobri que embora com sotaques bem distintos, falar a mesma língua ainda é a melhor maneira de ser bem entendida.

E não falar a língua do país é, talvez, a melhor maneira de não ser bem recebida. Pelo menos foi o que senti em Roma, onde algumas vezes até arrisquei um "italianhol" para tentar provocar mais simpatia que com o inglês, mas não teve jeito, embora, assim como a maioria dos brasileiros eu seja carregada de ascêndencia italiana, as experiências que tive com nossos "fratelli", não foram tão fratellas assim.

E apesar dos lugares incríveis que conheci - e que não vou detalhar porque só passando lá para saber e cada um sabe e sente do seu jeito - nada como morar e desbravar os detalhes da cidade tempo ao tempo. Este parágrafo é só um parênteses para reiterar aqui meu amor e ainda total preferência pela capital da Espanha, Madrid (com D!). Que aliás, deixou imensa saudade ainda no aeroporto, quando após me despedir da minha mãe, já sentia o incômodo de ter que voltar pra Irlanda ao ver uma típica "irish" de 12 anos de idade com um micro-shortinho jeans atolado na bunda como elas adoram, mesmo com o super verão de 17 graus.

Incômodos a parte, minha passagem de 15 dias pela Irlanda foi bem agradável. Na casa de um amigo, pude sentir novamente a leveza de se viver em República e matar aquela saudade das conversas intermináveis na sala/cozinha de um apartamento com mais de cinco pessoas.

Também visitei Galway, a fábrica da Guinnes e o Museu do Leprechaun. Visitei alguns pubs e após muita prática do português, abri mão de tudo para me enfiar na Inglaterra.

Decisão que me custou várias noites de sono e vários euros transformados em pounds. Depois de tanto refletir sobre ficar em Dublin e recuperar meu emprego super divertido e bem pago em um pub ao lado de amigos enquanto procurava algo mais concreto para fazer; optei por começar novamente do zero, me permitir mais uma nova experiência e dar de novo a cara a tapa para o mundo.

Eis que aqui estou - após a recepção de cinco amigos ingleses que se reuniram em Manchester no "Encontro Anual dos Ingleses que se conheceram nos Estados Unidos"(o título fui eu que inventei, mas a ideia do evento é essa mesmo) e muita diversão que me fez relembrar toda a alegria de quem tinha apenas 20 anos e estava no segundo ano de faculdade - a buscar trabalho de novo e, consequentemente, um foco mais certo para meus próximos meses de missão Europa. Isso até me rendeu um bate e volta pra Edimburgo atrás de um emprego, que, infelizmente, não saiu, mas pelo menos me trouxe a oportunidade de conhecer a capital da Escócia.

Não bastando trabalho, a busca segue também por amigos, casa e rumo.

É por isso que digo, "volta o cão arrependido". Depois de meses incessantes de viagens, diversão, dinheiro e falta de tempo, eis que agora me faltam os primeiros e me sobra o último para voltar a escrever.









segunda-feira, 18 de julho de 2011

Diferente pero no mucho


Já faz três finais de semana que estou em Madrid – sim, com ‘d’ no final porque já não consigo escrever da maneira brasileira – e ainda não tinha encontrado tempo para escrever sobre a minha segunda escolha de lugar para se viver no continente europeu.

E essa falta de tempo nada mais é que um reflexo da intensidade de como as coisas acontecem na vida real e me tomam o tempo da antiga e solitária virtual.

Desde que cheguei aqui, perdi o costume que me acompanha desde que a internet banda larga foi implantada, de ligar o computador sempre que chego em casa antes mesmo de tirar os sapatos. Agora, sempre vem primeiro a vontade de tomar um banho, tirar toda a inhaca de protetor solar e poeira do corpo e dormir logo porque tenho só algumas horas de sono para um novo dia seguinte repleto de atividades.

Desde que cheguei aqui, o calor, a cara do sol e o ritmo das pessoas me conquistaram de uma maneira, que antes que prossigam a ler este texto preciso dizer que é apaixonante e, assim como todo coração apaixonado atropela os defeitos de seu amado, talvez eu faça isso nesta descrição e percepção de Madrid.

Reforço a dizer que a Espanha, de um modo geral, me roubou o coração como se rouba doce de criança, mas Madrid, a capital onde estou vivendo, mais do que tudo me contagia e surpreende em todo tempo, em toda parte.

Não sei se foi o fruto de uma relação turbulenta que se tornou um tanto desgastada nos seis meses com a congelante Dublin que me fizeram cair de amores por Madrid de cabeça, ou a latinidade toda que trouxe mais perto todos os comportamentos, costumes, calor e o próprio idioma do meu país; mas o fato é que, desde que coloquei os pés aqui, me sinto em casa.

Me sinto em casa de uma maneira até ingrata, porque já não me deparo com a falta do Brasil como na Irlanda. Amo meu país e ainda considero, como Dorothy de O Mágico de Oz, que “there is no place like home”, mas sinto que a hora de voltar pra casa pode e deve esperar.

Não há como resumir três semanas em um texto, tampouco penso que poderia. A maioria das coisas vai muito além do acontecer para o sentir e não há como transmitir com palavras. Meus pés nunca estiveram tão feios e cansados, como disse minha amiga desde a infância Regiane, que coincidentemente se encontra comigo neste momento, se eu sentar numa calçada e mostrá-los com um chapéu do lado, com certeza, vão me jogar moedas por piedade. Não há mais lugares para machucados e bolhas, nem o tênis de escalada que comprei essa semana ajudou. As sardas mais salientes também revelam que o protetor solar não está dando conta, mas Madrid merece e não consigo parar.

Difícil preferir os túneis frios do subsolo pegando um atalho no metro ao calor e vivacidade das ruas desta capital que durante o dia brilha e durante a noite, reluz. Das oito da manhã, quando saio para as aulas na Universidade Complutense, até a hora de voltar da balada, não importa qual seja a hora, a cidade está cheia. Pessoas andando pelas praças, calçadas e parques. Ninguém parece preocupado com o horário. Até famílias, com suas crianças, caminham em plena meia noite. Ninguém parece cansar. Ninguém parece querer voltar pra casa. Talvez porque a casa seja o próprio lado de fora, talvez porque o conceito de casa esteja em todos os lugares.

De fato não sei dizer o que me encanta mais. Alguns espanhóis que trabalham com o atendimento ao público são bem mal educados, impacientes e apressados. Dizem que algumas partes da cidade são violentas e já até presenciei um assalto em uma loja a alguns quarteirões de casa. Aqui também tem mendigos e algumas paredes pichadas. Uma cidade, talvez como muitas outras, mas os pés cansados não negam que até os pequenos defeitos fazem parte da magia de um lugar que não é perfeito, no entanto se faz completo com suas doses certeiras de bondade e malícia.

Sim, Madrid não é perfeita, mas como já dizia Jabor: “Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. (...) Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca”.

Este sábado em uma taverna de sangrias, um texto de Nietzsche que estava na parede resume tudo isto. Em um idioma diferente, “pero no mucho”. Ao menos não o suficiente para que não seja compreendido para os falantes de português, aqui está a perfeição que se encontra em ser errante: “‎Odio las almas estrechas, sin bálsamo ni veneno hecha sin nada malo ni bueno".


PS: Desta vez vou de Set Fire to the Rain, que é a minha preferida da Adele. Não tem muito a ver com a latinidade, mas a inglesa está em todas aqui na Europa e rega nossas noites de vinho tinto, queijo brie e chocolate com investimentos que não chegam a cinco euros.